Crônica | Momento de Perfeição - Affonso Romano de Sant´Anna



A frase me veio da cena de um filme americano. Cena simples. Um rapaz loiro está pescando num rio. Seu pai tira uma foto no exato momento em que ele exibe, sorridente, o rútilo peixe obtido. Considerando aquele momento contido dentro da foto, o outro irmão diria mais tarde: "Aquele foi um momento de perfeição."

A cena foi simples, como já disse. Mas a frase que fixou ficou ressoando em mim, buscando exemplos assim simples e fortes de perfeição.

A primeira sensação foi a de que desperdiçamos os momentos de perfeição ao não os perceber. Ou melhor, ao fingir que não os percebemos. Na verdade, há que afirmar a sensibilidade para captar os momentos inteiros, redondos, impecáveis. Impecáveis, significado sem manchas, redondos, porque têm a figuração da completude; inteiriços, porque nenhuma das partes que compõem o todo parece desvinculada e sem sentido.

Por exemplo, um jantar dois num terraço, à luz de velas. O vinho na pequena mesa, junto à comida refinada. As árvores serenas em torno. As estrelas sobre as montanhas. E ao fundo um concerto barroco. Este é um momento de perfeição. Longe ficou o ruído da cidade, a violência que deixa a alma eriçada, o combate entra as neuroses humanas.

Há momentos de perfeição espalhados mesmo no dia-a-dia mais atroz. Certa vez vi um casal se beijando ao meio-dia no canteiro que separa as duas pistas da avenida Presidente Vargas. Vê-los tão entregues um ao outro, alheios às buzinas e à curiosidade, além da inveja, deu-me essa sensação de unidade que só têm as coisas quando estão repousadas em si mesmas.

No meio de uma cirurgia pode ocorrer o corretíssimo momento de perfeição, quando o gesto perfeito comanda os instrumentos como, num concerto, o maestro.

Um cavalo galopando. Um inseto na grama. A filha correndo com seus cabelos loiros no gramado. Um raio de luz sobre a flor na jarra, aquele barco a vela na linha do horizonte. O vôo da gaivota e depois o mergulho certeiro sobre o peixe que volta aprisionado no seu bico, ou aqueles gestos que os mágicos fazem no palco, desembrulhando espantos aos nossos olhos, são instantes onde não há excessos - perfeitos.

Mas esses, devo reconhecer, são exemplos comuns, fáceis de notar, como certos crepúsculos de Ipanema no verão, em que num momento exato o sol se põe e, extasiados os banhistas o aplaudem. Mas pode ocorrer que essa percepção venha, de novo, de uma simples cena, no seu próprio quarto ou escritório. Essas canetas e lápis sobre a mesa e a prancheta. As fotos e os recortes na cortiça. Os livros, os objetos pessoais e uma súbita sensação de que a vida está plena, que a casa está em paz.

Talvez alguém diga que o momento de perfeição é uma questão de ponto de vista. Há um ponto de vista interno. A gente é que confere a certas cenas alheias esse atributo. è mais ou menos como acontece nos anúncios de cigarro ou cartão de créditos: um casal correndo na areia da praia para se encontrar e se beijando ao pôr-do-sol ou os namorados num restaurante em Veneza.

E há outro ponto de vista interno, os pequenos e rápidos momentos de perfeiçãoque cada um vive consigo mesmo. Por outro lado, o que é perfeito para um pode não ser perfeito para outro. Imagino Picasso satisfeito diante de um de seus quadros e imagino alguém que olhasse o mesmo quadro com certo horror.

Então, eu diria que é necessário desenvolver a sensibilidade para certos momentos de perfeição menos óbvia. Talvez esteja exigindo muito, porque mesmo para o momentos de maior esplendor de uma flor muitos estão desatentos. o que dizer então do momento de esplendor da filha ou da mulher ou até do domingo.

Sim, as pessoas têm momentos de perfeição. Às vezes nem se dão conta disso. Já ví pessoas caminhando em pura luminosidade pela praia. Ou então, às vezes, um certo perfil num restaurante ou num teatro. Em Tracunharém, lá em Pernambuco, ví uma artesã sentada no chão pobre de sua casa fazendo uma bela escultura de barro: era de uma comovente perfeição. O momento de perfeição de uma pessoa, no entanto, nem sempre é aquele em que ergue um troféu. Pode ser aquele em que distraído na varanda de casa ou da fazenda passa em vista sua vida interior.

O mundo é tão feio, conforme se vê no caráter de certas pessoas e nas notícias de tevê. A vida é tão difícil como se constata nos salários e nas pessoas que não respondem sequer a um "bom dia" gratuito e saudável que lhes damos. Há gente no comércio como piranhas mordiscando nosso dinheiro, pivetes querendo levar nosso tênis e anel, tanta coisa ruidosa no desconcerto do mundo, que se torna urgente, cada vez mais, pesquisar e fixar dentro e fora de nós os delicados e raros momentos de perfeição.

Essas sábias palavras são de Affonso Romano de Sant´Anna. Do livro de Crônicas "Que presente te dar". É um texto que admiro muito e resolvi compartilhar agora por estar sem tempo de terminar minhas leituras e fazer uma resenha pro blog. Semana de provas e trabalhos na faculdade, em breve tudo melhora. De qualquer maneira, espero que apreciem.


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